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Sérgio Reis tem vida contada em biografia de narrativa romanceada e dispersiva
Sérgio Reis tem vida contada em biografia de narrativa romanceada e dispersiva

A biografia de Sérgio Reis recém-posta nas livrarias é o que se convencionou chamar de biografia chapa branca. Além de amigo do cantor e compositor paulistano, o autor do livro Sérgio Reis – Uma vida, um talento (Editora Tinta Negra) – o jornalista mineiro Murilo Carvalho – tem tido convivência profissional com o artista biografado por dirigir, nos últimos 25 anos, programa de TV apresentado por Reis e dirigido aos caminhoneiros.
Em essência, o que se lê ao longo das 256 páginas da biografia é ode romanceada a esse artista multimídia que também se aventurou como ator de cinema e de TV, tendo vivido peões em novelas de Benedito Ruy Barbosa como Pantanal (TV Manchete, 1990) e O rei do gado (TV Globo, 1996).
Nem por isso, o livro deixa de ser eventualmente cativante para quem se interessa pela música brasileira, em especial pelo universo sertanejo, do qual Reis é ícone desde a década de 1970. Talvez porque a vida de Sérgio Bavini – descendente de italianos nascido em 23 de junho de 1940 – tenha lances folhetinescos e dê mesmo um filme ou livro romanceado como o escrito por Murilo Carvalho.
O maior problema da biografia é o tom por vezes dispersivo da narrativa. Não raro, o autor tira o foco da vida de Reis para se estender em demasia sobre alguns momentos do Brasil. Ou sobre as origens da música caipira. Ou ainda sobre as histórias de pessoas (artistas, em maioria) que cruzaram os caminhos de Sérgio Reis em rota que começou urbana dos anos 1940 aos anos 1960, na agitada cidade de São Paulo (SP), e que foi se tornando progressivamente rural e interiorana a partir da década de 1970.
Carvalho se alonga demais ao fazer as (necessárias) contextualizações de momentos vividos por Sérgio Reis nos 78 anos do artista. Limados os excessos, a narrativa de Sérgio Reis – Uma vida, um talento consegue capturar a atenção do leitor porque a vida do artista tem sido repleta de aventuras vividas Brasil afora em shows e em fazendas.
Um dos méritos do livro é o esclarecimento dos vínculos de Sérgio Reis com a música sertaneja antes do estouro do cantor como um dos ídolos da Jovem Guarda com a balada Coração de papel, composta pelo próprio Sérgio Reis e lançada em disco pelo cantor em compacto editado em 1966.
Reis não migrou do pop geralmente pueril da Jovem Guarda para o universo sertanejo, em meados da década de 1970, por mero oportunismo. Adolescente, ele já travara contato com a viola no início dos anos 1950 e, antes, menino, já se ligava nos programas de rádio para ouvir a então popularíssima dupla sertaneja Tonico & Tinoco.
O que aconteceu – como detalha Murilo Ribeiro no livro – é que, fã de música sertaneja e atento aos sinais do sucesso persistente da música O menino da porteira (Teddy Vieira e Luís Raimundo, 1955) no interior do Brasil, Sérgio Reis insistiu com o produtor habitual dos discos do artista, Tony Campello, para regravar a composição.
Nem Campello e tampouco a gravadora RCA-Victor acreditavam na incursão sertaneja do cantor, mas, diante da insistência do artista, Reis registrou O menino da porteira em 1975 – vinte anos após a gravação original da dupla Luisinho & Limeira – e a gravação estourou em todo o Brasil, apontando a Reis (e aos executivos da gravadora) o caminho a ser seguido a partir de então.
Começou ali o reinado sertanejo de Sérgio Reis, assunto de quase toda biografia, pontuada por causos rurais e descrições de repertórios de discos e de aventuras no cumprimento da agenda de shows – tudo escrito em tom de louvação ao caráter do biografado e à trajetória do artista como cantor, ator e político, com poucos detalhes sobre a vida pessoal de Reis.
Depoimentos de amigos – como Almir Sater e Renato Teixeira, companheiros de estrada e de almoços em terras pantaneiras – corroboram a glorificação de Sérgio Reis nas páginas desse livro que será lançado no Rio de Janeiro (RJ) na próxima sexta-feira, 14 de setembro, em evento em livraria de shopping da cidade.

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