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‘Espero que um dia Zé Ninguém deixe de fazer sentido’, diz Bruno, do Biquini
‘Espero que um dia Zé Ninguém deixe de fazer sentido’, diz Bruno, do Biquini

Os versos de “Zé Ninguém”, um dos maiores sucessos da banda Biquini Cavadão, foram escritos há cerca de 25 anos, mas poderia ser usada para retratar o atual contexto político e social do Brasil. Autor da letra, o vocalista Bruno Gouveia se diz feliz pela música ser uma das mais cantadas nos shows, mas diz lamentar que o país tenha mudado tão pouco desde os anos 1990.
“Eu ainda tenho esperança de tocar ‘Zé Ninguém’ sem que a letra faça nenhum sentido. Daqui a alguns anos a pessoa vai ouvir e falar ‘eu não acredito que os caras roubavam e não acontecia nada com eles’. Eu sou otimista”, diz Bruno.
“[Quem foi que disse] Que existe ordem e progresso enquanto a zona corre solta no Congresso?”, “aos meses seguem os aumentos” e “eu sou do povo, eu sou um Zé Ninguém, aqui embaixo as leis são diferentes” são alguns dos trechos da música presente no disco “Descivilização”,
Segundo o cantor, a inspiração para “Zé Ninguém” foi o processo de impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Mello, mas a letra pode ser aplicada à situação do país em qualquer período antes ou depois, sob o governo de qualquer partido.
“Acho que a corrupção só vai ter fim no dia em que for considerada crime hediondo, quando houver punição severa. Aí o país vai mudar, o dinheiro vai para a estrada, para construir a escola, vai para o hospital, para a segurança pública. Mas eu sou otimista, acho que um dia vai ser assim.”
Em 30 anos de carreira, o Biquini Cavadão compôs diversas músicas com letras que contestam as desigualdades sociais e algumas normas estabelecidas. “A nossa crítica quase sempre não é política, mas social.”

Uma das primeiras foi “Reco”, crítica à obrigatoriedade do serviço militar, gravada no LP de estreia, “Cidade em torrentes”, de 1986. “Reco, soldado raso. Você tem que ajoelhar na lama, se intoxicar com gás. Faça tudo isso por amor à pátria”, diz um trecho.

O trabalho de estreia tem outra música com uma reflexão sobre conflitos. “Errar não é humano, depende de quem erra. Esperamos pela vida vivendo só de guerra”, diz o refrão de “Múmias”. A música ganhou outra versão, com participação de Renato Russo, no álbum “80”, lançado em 2001.

“Janaina”, do álbum “biquini.com.br”, de 1998, é outra que usa o cenário social como pano de fundo. A canção tem versos como “Janaina acorda todo dia às 4h30 e já na hora de ir pra cama Janaina pensa que o dia não passou, que nada aconteceu” e “passa as horas do seu dia em trens lotados, filas de supermercados, bancos e repartições que repartem sua vida”.
“É interessante como o lado masculino, Zé Ninguém, fala de uma forma, com uma coisa mais pessimista, a vida ‘acabou faz tempo’, e o lado feminino, Janaina, diz que ‘apesar de tudo ela tem sonhos'”, afirma Bruno.
O trabalho mais recente da banda, “Me leve sem destino”, gravado em 2014, ao vivo em Goiânia, traz uma faixa inspirada nas manifestações populares de 2013. “Livre” é uma das quatro músicas inéditas e traz versos como “vou pra rua, vou mostrar o meu desejo de mudar. Vou usar a minha voz que não sabia mais gritar”.
As críticas sociais sempre tiveram espaço na obra do Biquini, mas não são o tema mais explorado da biografia da banda. Bruno, Coelho, Miguel e Álvaro (e Sheik, que ficou no grupo até 2000). A trajetória traz letras sobre diversos assuntos, como amor, comportamento, relações humanas e filosofia.
“Desde que o Biquini começou, o nosso desejo é o de se comunicar com as pessoas”, diz Bruno. Ele cita os trabalhos pioneiros pela internet (a banda foi a primeira a ter um e-mail, a montar um site e a disponibilizar trabalho em pen drive no país) para mostrar que o intuito é ampliar o alcance do público. “O que a gente faz é pegar ferramentas para que isso [comunicar com as pessoas] aconteça.”

E essa comunicação acontece, sobretudo no show. A banda nunca foi a mais tocada do momento, apesar de sucessos como “Vento ventania”, mas sempre fez apresentações que agradam o público.
“A gente nunca foi uma banda de brigar por esse artifício de mídia. A gente não tinha outro lugar para mostrar o que é o Biquini a não ser o palco. Por isso nossos shows são assim”, afirma o vocalista.

Para animar o público, o grupo se vale de sucessos como “Tédio”, “Timidez”, “No mundo da lua”, “Teoria”, “Ida e volta”, “Impossível”, “Meu reino”, “Quando eu te encontrar” e “Dani”.

A banda também regravou músicas como “Chove chuva”, de Jorge Ben Jor, “Carta aos missionários”, de Uns e Outros, e “Toda forma de poder”, dos Engenheiros do Hawaii,

g1globo

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