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Em São Paulo, Paul McCartney toca menos músicas dos Beatles e se iguala à turnê de 1993
Em São Paulo, Paul McCartney toca menos músicas dos Beatles e se iguala à turnê de 1993

O baixo Hofner de Paul McCartney traz uma marca do tempo no seu corpo, logo embaixo das cordas, onde os dedos da mão esquerda repousam enquanto ele toca algumas das cordas. Um desgastezinho capaz de mostrar que o instrumento já rodou bastante com o ex-Beatle nessa existência. Seu som ainda explode, em graves potentes e um groove que leva a assinatura do inglês de 76 anos.

Os cabelos de Paul McCartney também são um sinal do tempo, essa força implacável e invencível. Depois de pintá-los um incontável número de vezes, Paul tem aceitado o grisalho, a brancura agora compõem o figurino e explícita os anos de estrada.

Cabelos e o baixo Hofner não deixam dúvida, Paul McCartney aceitou a ação do tempo. Contra ele é impossível lutar, embora já quem tente, naquela insensata batalha por parecer uma meia dúzia de anos a menos. Óculos de sol mesmo à noite, quilos de maquiagem e cachecóis são alguns dos artifícios mais usados. Tudo uma grande bobagem.
Quando se aceita o tempo, brinca-se com ele. Diverte-se com sua passagem implacável. E, por fim, usa-a a seu favor.

Atenção às novidades
Paul McCartney entendeu isso. E o mostrou nesta que é a 9ª vez no Brasil, também 9ª em São Paulo, no show realizado no Allianz Parque, na noite desta terça-feira, 26. O tempo pode ser seu parceiro – e não usaremos a metáfora do vinho aqui, pedimos perdão ao clichê pronto para entrar em ação e descartado.

Com a frequência no Brasil, Paul McCartney já pode se dar ao luxo de experimentar, de apostar em canções das safras recentes, dos álbuns mais recentes. Como o fez nas primeiras passagens por aqui, em 1990 e 1993. Em ambas, pelo menos 6 canções do repertório eram dedicadas ao álbum mais recente do músico na época, Flowers in the Dirt (1989) e Off the Ground (1993).

Nesta terça-feira, 26, no primeiro show da nova turnê de Paul McCartney, o inglês dividiu seu foco nas “canções novas” entre os dois álbuns mais recentes dele. New, de 2013, apareceu com duas músicas (“Queenie Eye” e “Save Us”), enquanto o novinho em folha Egypt Station, de 2018, apareceu em quatro oportunidades (“Back in Brazil”, “Come On to Me”, “Fuh You”, “Who Cares”).

Menos músicas dos Beatles
O repertório de Beatles dentro da escolha de músicas da noite, embora sempre seja substancial, pela primeira vez mostra uma queda acentuada também desde as vindas de Paul na década de 1990.

Desta vez, foram 53% das músicas da noite dedicadas àquela conhecida como a maior banda de todos os tempos. Proporção menor que ela só foi mostrada, por exemplo, no no Estádio do Pacaembu, em São Paulo, em 1993, quando foram 16 canções dos Beatles em 32 músicas de shows (50%, portanto).

Desde o longo período distante dos palcos brasileiros, entre as tours de 1993 e 2010, quando voltou a dar as caras por aqui, Paul tinha preferido criar shows nostálgicos, como se tivesse uma dívida a pagar com o público tão sedento pelas canções mais clássicas. Agora, depois de tantas apresentações por aqui, ele se mostra mais aberto às novidades.

Mas, ei, veja bem, é claro que Beatles e Wings têm enorme destaque ainda. Os primeiros anos de Paul como artista solo também. A questão interessante é ver pouco se permitindo, novamente, ao desafio de tocar músicas que não necessariamente têm décadas de história na vida de cada uma das pessoas presentes no estádio diante dele. E, veja bem, no Allianz, eram 45,6 mil pessoas.

Impressiona o fato de que algumas canções mais novas num repertório robusto de quase 40 músicas não gera desinteresse por parte do público. Claro, há quem ainda prefira reservar esses 3 minutos e pouco para correr para o bar ou ao banheiro, mas músicas como “Back in Brazil”, uma bossina nova de sotaque gringo criada por Paul inspirada em passagens anteriores pelo País, e “Come To Me” foram capazes de criar algum alvoroço.

Arranjos impecáveis, como sempre
A verdade é que, ao aceitar a passagem do tempo, Paul McCartney entendeu como brincar com ele. Faz seu vai e vem ao percorrer os anos de carreira iniciada em 1957, ainda antes de estabelecer-se com os Beatles. São mais de 60 anos de história, afinal.

Cria, ao pontuar novidades entre as canções com carga emocional maior para cada um de nós, uma interessante sensação de frescor. Como um jovem aos 76, Paul McCartney afaga as memórias criadas com essas canções com um carinho terno, enquanto planta uma semente do desejo de que novas memórias sejam criadas a partir das músicas mais recentes.

Brian Ray (guitarra), Rusty Anderson (guitarra), Paul Wickens (teclado) e Abe Laboriel Jr. (bateria) são precisos e preciosos demais para Macca, que mostra estar bastante à vontade com eles – o destaque, como sempre, fica para Laboriel Jr., carismático em suas dancinhas quando não está marretando seu instrumento.

Claro, ele ainda se põe a homenagear os parceiros de longa data. Em “Foxy Lady”, faz referência um dos maiores guitarristas de todos os tempos, Jimi Hendrix, fã confesso dos Beatles e, principalmente, do álbum Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band”, de 1967.

Em “Here Today”, celebra a vida de John Lennon, parceiro de Beatles. Com a lindíssima “Something”, é a vez da memória de George Harrison brilhar em saudade.

Diferentemente de artistas que se cansam dos arranjos de suas canções, criando versões alternativas àquelas registradas em discos, Paul McCartney é como se fosse um nerd do seu próprio material. Montou uma banda, que o acompanha há tempos, para recriar as mesmas sensações de outrora, sem cair no perigoso caminho do “cover de si”. Tem elegância ao mostrar a passagem no tempo na sua voz, no seu instrumento gasto, nos cabelinhos fofamente grisalhos.

Se quando voltou a frequentar os palcos brasileiros, em 2010, Paul dedicava “My Love” “à minha gatinha Linda”, em referência a Linda McCartney, primeira esposa dele, que morreu em 1998, agora, o homem apaixonado faz sua declaração a Nancy Shevell, com quem está junto desde 2011. Para ela, ele dedica “My Valentine”, do disco Kisses of the Bottom (2012).

Perceba, ele ainda toca “Maybe I’m Amazed”, outra canção criada em homenagem a Linda McCartney – e provavelmente essa canção estará no seu repertório pelo resto da vida do ex-Beatles -, mas o tempo seguiu, amores se transformam em outra coisa. O tempo é o tempo é amigo de Paul McCartney. Ele vive o hoje, sem esquecer do que passou.

O inglês volta ao mesmo Allianz Parque nesta quarta-feira, 27. Ainda há ingressos.

Repertório de Paul McCartney em São Paulo, nesta terça, 26:

“A Hard Day’s Night”
“Save Us”
“All My Loving”
“Letting Go”
“Who Cares”
“Got to Get You Into My Life”
“Come On to Me”
“Let Me Roll It”
“I’ve Got a Feeling”
“Let ‘Em In”
“My Valentine”
“Nineteen Hundred and Eighty-Five”
“Maybe I’m Amazed”
“I’ve Just Seen a Face”
“In Spite of All the Danger”
“From Me to You”
“Dance Tonight”
“Love Me Do”
“Blackbird”
“Here Today”
“Queenie Eye”
“Lady Madonna”
“Eleanor Rigby”
“Back in Brazil”
“Fuh You”
“Being for the Benefit of Mr. Kite!”
“Something”
“Ob-La-Di, Ob-La-Da”
“Band on the Run”
“Back in the U.S.S.R.”
“Let It Be”
“Live and Let Die”
“Hey Jude”
Bis:
“Hi, Hi, Hi”
“Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” (Reprise)
“Helter Skelter”
“Golden Slumbers”
“Carry That Weight”
“The End”

Via Rolling Stone

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